Possuindo um incomensurável acervo de informações históricas, passando de 11 mil assuntos (entre eles, mais de 300 dados biográficos de pioneiros santanenses e mais de 500 fotos históricas que registram o crescimento demográfico e social da cidade portuária do Amapá).



domingo, 5 de agosto de 2012

Descrições Sobre a Evolução Populacional de Santana


Com população inicial de 283 habitantes, Santana tem hoje mais de 100 mil habitantes espalhados em todo seu município.


Os primeiros sinais ligados à expansão populacionais de Santana foram registrados ainda no final da década de 1940, quando a extinta empresa de mineração ICOMI iniciou os estudos topográficos para montagem de seu cais flutuante. Em 1949, já havia pouco mais de 150 pessoas que residiam na Ilha de Santana, enquanto que outras chegaram periodicamente na região, trazendo consigo suas famílias, buscando assim melhores condições de sustento. 

Um pouco antes (mais precisamente a partir de 1945), o Serviço de Geografia e Estatística do então Governo Territorial do Amapá iniciou um intensivo levantamento anual sobre o crescimento sócio-populacional deste recém-criado como forma de acompanhar sua evolução demográfica e as consequências geradas pela migração desordenada que assolava a região. 

Em julho de 1950, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o então Território Federal do Amapá já continha quase 40 mil habitantes, ou seja, havendo crescido em mais de 15 vezes acima do esperado desde sua implantação político-territorial em 1944. 

Segundo este relatório divulgado pelo IBGE, nota-se que havia 283 habitantes residindo na Ilha de Santana, enquanto que outros 34 habitantes já fixavam moradias numa área em volta do canteiro de obras do futuro Porto de minérios da ICOMI, em Santana, com isso totalizando 317 habitantes espalhados em essas duas áreas. 

Porém, esse índice populacional foi periodicamente se ampliando em virtude da instalação do Projeto ICOMI ainda em meados da década de 1950, dando origem a núcleos suburbanos que se espalhavam por áreas de terras entre o portão de entrada da ICOMI e a vila portuária do Igarapé da Fortaleza. 

No início de 1956, a Prefeitura de Macapá constatou a existência de pelo menos três núcleos populacionais espalhados nas imediações do Porto de embarque de minérios da ICOMI, que eram: a Vila Papelão ou Duplex (onde hoje está situada a área portuária e o inacabado Terminal Hidroviário de Santana); a Vila da Olaria (onde hoje fica o Quartel do Corpo de Bombeiros de Santana); e o alojamento interino de operários da ICOMI (que foi temporariamente montado numa ara onde hoje fica o prédio do Superfácil). Esses vilarejos povoavam cerca de 850 pessoas, entre crianças e adultos. 

A partir de meados de 1958, a empresa ICOMI passou a se preocupar com a questão do possível crescimento desordenado que ocorreria nas imediações das áreas em que atuava seu projeto de exploração de minério. Sob tal situação, passou a realizar um levantamento anual dos habitantes que residiam nas adjacências de suas instalações industriais e moradias. O levantamento constava de três técnicos contratados pela mineradora que percorriam os pequenos núcleos urbanos que se formavam entre o cais de embarque de minérios da ICOMI, seguindo até a área onde estava sendo construída a luxuosa Vila Operaria, posteriormente denominada de Vila Amazonas. 

Vale informar que essas informações levantadas pela ICOMI eram também repassadas ao Poder Público Municipal da capital amapaense como forma de conhecer a situação socioeconômica e sua infraestrutura, podendo assim buscarem maneiras de aplicarem uma política mais coerente para os habitantes que residiam nesses núcleos considerados suburbanos. 

Em março de 1961, o povoado santanense já havia cinco vilas espalhadas entre as instalações portuárias da ICOMI e o canteiro de obras da futura Vila Amazonas. As vilas eram: São Francisco (contendo 34 casas), Vila Maia (com 85 casas), Vila Toco (com 35 casas), Vila Olaria (com 76 famílias) e Ilha de Santana (com 83 famílias). 

Segundo registros, no ano seguinte (1962), havia pouco mais de 6 mil habitantes espalhados em 11 vilas existentes nas imediações do Canal Norte do Rio Amazonas e a mineradora ICOMI, incluindo a vila operária da ICOMI (Vila Amazonas) que estava em fase de final de construção (apesar de ali haver famílias de funcionários da mineradores residindo desde 1956, quando ainda estavam construindo os primeiros alojamentos primários daquele conjunto residencial privado. As vilas suburbanas que agora formavam Santana eram: Vila Maia, Vila Floresta, Vila Matadouro, Vila Toco, Vila Confusão, Vila Galdino, Vila da Cerca, Vila Muriçoca e Vila do Bueiro. 

No início da década de 1970, algumas dessas vilas suburbanas que se espalhavam nas proximidades das instalações da ICOMI foram se unificando com outros vilarejos, formando assim pequenos bairros conhecidos de Santana, como área Comercial, bairro da Floresta, bairro Novo, bairro dos Remédios e outros que conhecemos. Tanto que a unificação desses vilarejos já totalizava, em novembro de 1970, mais de 12 mil habitantes dentro do núcleo mais populoso que existia, a famosa Vila Maia. 

Contestações do crescimento populacional pós-município
Com a emancipação política de Santana, a partir de 1987, o novo município amapaense não deixaria de ser como outras cidades recém-criadas, pois, também sofreria com o fluxo migratório de famílias oriundas de Estados brasileiros como Pará e Maranhão. 

No entanto, inicialmente, essa migração não foi tão preocupante para o Poder Público competente, pois, a estrutura político-administrativa da nova cidade ainda não oferecia inúmeras condições urbanas para o possível impacto do crescimento populacional da região. 

Porém, com a criação a Área de Livre Comércio de Macapá e Santana (ALCMS), em maio de 1992, e sua implantação no ano seguinte (1993), houve um imediato impulso no crescimento populacional nas duas maiores cidades do Estado do Amapá, sendo que em menos de dois anos esse número subiu em mais de 25%, ultrapassando em 60 habitantes, e consecutivamente aumentando (desordenadamente) entre 20% a 30% anual. 

Em março de 1993, o então prefeito de Santana Geovani Borges recebeu do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o resultado do Censo populacional, que alegava o apontamento de 51 habitantes em todo perímetro urbano e rural do município. Porém, Geovani Borges detectou diversas falhas no Censo e solicitou que o órgão efetuasse uma recontagem, pois, considerava inconfiável os números indicados pelo IBGE para formalizar no processo censitário de 1991. 

Ainda, de acordo com a Prefeitura de Santana, muitas famílias alegaram não terem sido censeadas (cotadas no Censo) pelo IBGE, mesmo residindo em Santana há mais de uma década. Sendo assim, técnicos contratados da Prefeitura de Santana ainda efetuaram um levantamento parcial da população de Santana, que em menos de 30 dias de coletas de informações, apontaria mais de 65 mil pessoas em Santana. Parte desse levantamento realizado pela Prefeitura de Santana consistiu em um recadastramento de imóveis, distribuídos em três grupos de pesquisas. 

Em resposta à ação da Prefeitura de Santana, o IBGE apresentou judicialmente diversos documentos que comprovavam os tramites das pesquisas de censo, na qual demonstrava que muitas famílias migravam temporariamente de lugares e retornavam após certo período de afastamento. O resultado favoreceu o IBGE, que manteve oficialmente o resultado de sua contagem, calculada em 51.451 habitantes para o Censo Nacional de 1991. 

Outros Dados
Até agosto de 2000, Santana já havia 80.169 habitantes, sendo que 40.222 eram homens e 39.947 eram mulheres. Desse número, 75.849 habitantes residiam na área urbana e o restante na área rural. Em menos de quatro anos, índice subiu em quase 15%, chegando a população santanense em 91.310 habitantes. 

Em 05 de outubro de 2007, a Gerência Regional do IBGE no Amapá divulgou o Censo 2007, onde previa que a população de Santana chegasse a 101.864 habitantes, mas os novos dados apontariam a existência de 87.829 habitantes. Ou seja, um crescimento de 13,77% abaixo do esperado pelo IBGE. Houve uma revisão nos dados, mas o censo se manteve em 91.615 habitantes. O IBGE ainda realizou uma inspeção em todos seus dados armazenados em computadores (notebook) e PD’s realizados nas pesquisas como forma de detectar alguma falha no censo, mas não constatou qualquer indicador errado. 

O censo mais recente efetuado pelo IBGE indica que Santana tem 101.262 habitantes, ocupando uma área territorial de 1.579,600km² (demonstrando 64,11 habitantes por km²).

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Crimes Macabros Ocorridos em Santana


Pela passagem da sexta-feira-13, aqui selecionei alguns fatos que historicamente aterrorizaram a população santanense por longo tempo


Em meados da década de 1980, o saudoso radialista amapaense Hermínio Gurgel (conhecido da dupla “Pai Véio” e “Pai Dégüa”) costumava chamar a cidade portuária do Amapá com o pseudônimo de “Santana das esquisitices”, por achar que fatos assustadores aconteciam constantemente nessa localidade.

Desde quando me entendo pela vida, ouvi dezenas de histórias e “causos” que tiveram grande repercussão entre a sociedade santanense, alguns até mesmo a ser matéria dos noticiários televisivos do Estado. Mexendo e remexendo em diversos registros guardados em meu extenso arquivo (que contém atualmente mais de 10 mil fatos e acontecimentos sobre o município de Santana), separei alguns "causos verídicos" que comoveram e chamaram a atenção da opinião pública amapaense:

O “Papa Defunto”
Em 04 de maio de 1987, agentes policiais da Delegacia de Santana prenderam o necro-maníaco Teodomiro de Oliveira Fernandes (conhecido “Turu”), que matou sua ex-mulher, a doméstica Maria de Fátima dos Anjos Miranda, 20, estrangulada, e manteve relações sexuais com o cadáver num matagal próximo ao Igarapé da Fortaleza durante 04 dias.

Sepultado Vivo
Em julho de 1989, o garoto Gerson da Silva Correa, de 09 anos, é enterrado vivo após ser barbaramente torturado por três marginais que usaram de represália que tinham pelos pais do garoto devido questões pessoais. O crime ocorreu no bairro Jardim Paraíso e chocou toda cidade de Santana.

Corpo em Lamaçal
Em 04 de outubro de 1989, moradores que residem próximo da Escola Padre Ângelo Biraghi, no bairro Paraíso, encontram o corpo de um bebe morto que estava enterrado em um lamaçal. Os mesmo haviam percebido que um porco estava comendo os restos mortais da criança na lama.

Magia Negra
Em março de 1990, alguns moradores do bairro Bacabal (Nova Brasília) denunciaram publicamente a existência de uma seita demoníaca coordenada por um “Mensageiro do Demônio”, auto-intitulado de pai Adauto, situado nas proximidades do Cemitério Municipal de Santana.

Corpos mutilados
Crianças podiam estar sendo mortas em um tipo de ritual de magia negra no município de Santana, segundo declarações que foram feitas por pelo menos cinco alunos da Escola Estadual Everaldo da Silva Vasconcellos, no bairro Paraíso, onde eles teriam visto dois corpos mutilados em uma encruzilhada, próximo a escola.

Segundo a professora Neiva da Silva Nunes, no intervalo do recreio, na manhã do dia 25 de maio de 1994, as crianças saíram para brincar fora da área da escola. Cinco delas foram se esconder dos outros colegas em um local sito à Avenida Presidente Garrastazu Médici, onde ali existia um terreno desocupado e de mato alto. De acordo com depoimentos das crianças, elas teriam encontrado dois corpos de estudantes que haviam sido mutilados.

Junto com os corpos, havia uma garrafa de champanhe, uma sacola de uvas, duas velas (sendo uma branca e uma vermelha com sinais de que foram acesas) e bananas.

O “Morto-vivo” de Santana
Em 05 de janeiro de 2009, confirmou-se a morte do mecânico Manoel Pereira Alves, 60 anos, que, segundo seus familiares, se encontrava sob suspeita de ainda estar vivo, mesmo sem apresentar sinais vitais de falecimento. Manoel havia sofrido uma parada cardíaca no dia 1º de janeiro e foi imediatamente levado ao Hospital de Emergência de Santana que acabou lhe encaminhando para o Hospital São Camilo, em Macapá, aonde veio a falecer.

Mesmo com atestado de óbito expedido, familiares do mecânico notaram que ele ainda apresentava alguns sinais vitais, onde até mesmo constataram suor escorrendo no rosto e nas costas do “moribundo”. Apesar de 02 diagnósticos atestarem sua morte, a família recusou-se a enterrar o ente querido, que permaneceu com seu velório durante 07 dias consecutivos, sendo necessário até a intervenção judicial do Ministério Público que solicitou um exame de necropsia detalhado para apurar o fato, que logo repercutiu em toda cidade de Santana.

O mecânico somente foi enterrado no dia 07 de janeiro após a confirmação feita por peritos da Politec/AP que informaram as prováveis causas ligadas à um ataque de catalepsia (um distúrbio que atinge o sistema neurológico do ser humano, paralisando todos seus movimentos, podendo durar de minutos a dias e faz com quem vê ache que a pessoa esteja ou não morta). Após tais explicações, os peritos puderam convencer os familiares do mecânico a realizarem o sepultamento.

De acordo com amigos da família, até a funerária recusou-se a enterrar o ente querido, alegando que o corpo não apresentava características de quem havia realmente morrido.

Caso “Feto Mutilado”
Na manhã do dia 1º de maio de 2010, uma viatura do 4º Batalhão da Polícia Militar de Santana, sob o comando do SGT Fernandes, foi acionada para apurar a localização do corpo de uma criança que foi encontrada por moradores que residem na região do Vagalume, no bairro Nova Brasília, em Santana.

Ao chegarem no local, os policiais se depararam com um fato bastante assustador: haviam apenas restos mortais de uma criança (com aproximadamente dois ou três meses de nascida) que estavam jogados no quintal de uma residência. Após buscar depoimentos de pessoas que residiam nas proximidades, um cachorro tipo vira-lata encontrou uma sacola entre o lixo deixado nas imediações e decidiu abrir para comer o que havia dentro.

O que não deu para o animal ingerir, acabou sendo encontrado pela moradora da casa onde o cachorro deixou os restos do feto que, acordo com testemunhas, ainda havia metade de um pequeno cadáver (do estômago para cima). Em outro local, os policiais descobriram que cachorro acabou vomitando o que havia ingerido daquele feto.

De acordo com o SGT Fernandes, fato dessa proporção jamais havia ocorrido em seu tempo como policial e que seria tomada todas as providências necessárias para apurar detalhadamente os responsáveis pelo crime.

Com a chegada dos peritos da Polícia Técnica, as primeiras informações repassadas com relação às prováveis causas da morte da criança, constataram-se de traumatismo craniano seguido de esquartejamento, pois notou-se que os membros superiores (braços) foram cortados por algum tipo de ferramenta com lâmina e não arrancada por dentes afiados de algum animal, como cachorro.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

1955: Avanços na construção da Estrada de Ferro do Amapá


1955 - Aspecto das adiantadas obras de assentamento dos trilhos na histórica ferrovia que liga Santana-Serra do Navio, sendo erguida por operários da ICOMI.



Quando ficou constatado que o minério de manganês encontrado pelo regatão Mário Cruz – em meados da década de 1940 durante uma de suas inúmeras viagens pelo rio Amaparí –, houve uma grande pressão das autoridades majoritárias da Nação com relação dos objetivos a serem logo tomados para sua exploração.

Na mesma década foi realizada uma histórica concorrência pública que favoreceu a empresa Indústria e Comércio de Minérios Ltda (ICOMI) em explorar o referido pelo período de 50 anos ininterruptos. No contrato assinado em 04 de dezembro de 1947, ficou descrito na 13ª Cláusula (no Capítulo II) que a empresa arrematadora das jazidas daria igualdade de condições com qualquer tipo de transporte, porém, preferiu pela construção de uma via férrea, sob a influência de que a mineradora teria sobre o progresso na região.

Passado todos os estudos e levantamentos técnicos que apontavam as condições geográficas entre as minas manganíferas e o futuro Porto de Embarque (que totalizaria uma distancia de quase 200km em linha reta), foram buscado procedimentos para sua execução que também dependeria de uma concessão do Governo Federal, que acabou sendo concedido através de um acordo feito somente em 28 de março de 1953.

Com todos os tramites formalizados, as obras de terraplanagem iniciaram em meados de 1954, no sentido Rio Amazonas-Serra do Navio. Em paralelo, um grupo de trabalhadores prosseguiu levantando barracos de compensados com telhas de zinco para ali funcionarem alguns setores técnicos da ICOMI.

Mas a grande empreitada dos serviços começaria em 1955, quando o canteiro de obras do futuro Porto de embarque da mineradora passaria a receber renomados projetistas e importantes navios, tanto estrangeiros como nacionais. Uma dessas primeiras visitas ocorreu em 30 de março (de 1955), quando o cargueiro norte-americano Mormacswan, da empresa Moore Mc Cormack, atracou em Porto de Santana, trazendo mais de 1.500 toneladas de material destinado à construção da ferrovia. Considerado o primeiro transatlântico a ancorar no “pier” de Santana, também trouxe 03 modernas locomotivas adquiridas pela ICOMI nos Estados Unidos.

Segundo o ex-soldador de ferramentas da ICOMI, Raimundo Antônio de Souza, hoje com 79 anos, as primeiras estruturas para montagem da ferrovia eram adquiridas por etapa pela mineradora. “Depois que começaram os serviços de terraplanagem da estrada por onde passaria os trilhos, tivemos que esperar por mais de dois meses para chegar as primeiras peças de montagem, que vinham sendo trazido em navios do Japão, Estados Unidos e até da Alemanha”, relembra seu Raimundo, que exerceu tal função na ICOMI no período de 1954 a 1979, seguindo depois para o quadro de servidores do extinto Território Federal do Amapá, onde se aposentou em 1992. “Quando chegaram as primeiras vigas, tivemos ainda que selecionar as peças mais resistentes para ficarem fincadas no Porto de embarque e as menos volumosas se tornaram a linha de acesso da ferrovia”, detalhou.

Um dos coordenadores que supervisionava diariamente os serviços de colocação das vigas era o engenheiro ferroviário Ralph Medellín (falecido em 2008), que chegava a ficar até dois dias “embrenhados” nas matas, buscando certeza que os trabalhos estavam realmente sendo executados de acordo com as projeções da empresa. “Os operários tinham que seguir uma ordem de serviço que demarcava em detalhes construção da ferrovia, que saía do ponto de partida (Porto de Santana) e alcançava as minas de manganês. Tinha locais tão difíceis de percorrer para abrir a ferrovia (referente a rios e lagos) que ficávamos até dois dias lançando aterro ou levantando uma ponte para chegarmos do outro lado e continuar o percurso de construção da ferrovia”, comentou Ralph, numa entrevista concedida a este blogueiro em fevereiro de 2004.

Ralph Medellín era venezuelano, radicado nos Estados Unidos (EUA) desde a década de 1940 e seguiu para o Brasil a convite da ICOMI com objetivo exclusivo de trabalhar na montagem da Estrada de Ferro do Amapá e do Porto de embarque de minérios de Santana, tornando-se um dos homens de confiança do Engenheiro Augusto Trajano Antunes durante o período de implantação e funcionamento da ICOMI no Amapá (de 1948 até 2003). Ainda abriu uma empresa terceirizada (Medellín Construções) que ficou prestando serviços na área interna do Porto de Santana durante o processo de repasse dos bens patrimoniais da mineradora para o Poder Executivo do Estado, mas acabou fechando após seu falecimento em novembro de 2008, vítima de insuficiência pulmonar.

O que mais aconteceu em 1955 – Acompanhando as obras de instalação do projeto ICOMI no Território Federal do Amapá, houve inúmeras visitas de autoridades nacionais, civis e até acadêmicas, assim como outros fatos historicamente marcados na localidade, que foram:

- Em 22 de junho, o Navio Hidrográfico (NHI) “Rio Branco”, vindo diretamente do Rio de Janeiro (RJ), se fazia pioneiro na utilização de novos equipamentos, ao empregar o “raydist”, adquirido para vencer os desafios de efetuar os serviços de balizamento do Canal Norte do Rio do Amazonas, a pedidos do Governo Federal;

- Em 16 de setembro, o Presidente da República Café Filho sanciona o Decreto nº 37.906, declarando de utilidade pública, para efeito de desapropriação pela ICOMI, as áreas de terras e respectivas benfeitorias compreendidas em uma faixa de terreno com largura de 60m por 49.602m de extensão. (Diário Oficial da União, de 08/10/1955);

- Em 25 de setembro, é fundado o “Santana Esporte Clube”, por iniciativa de um grupo de funcionários da ICOMI, do setor operário, influenciados por Antônio Trevisani, que foi eleito o primeiro presidente desta agremiação esportiva;

- Em 15 de outubro, uma caravana composta de 06 jornalistas cariocas, visitam o canteiro de obras do Porto de Santana, e ficam impressionados com os trabalhos que vem sendo realizados, tanto pela administração amapaense como pela ICOMI;

- Em 25 de novembro, chegava ao Porto Platon (alojamento da ICOMI), no km 120, a primeira locomotiva a ser empregada no transporte do minério de manganês para o Porto de Santana.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Registros Inicias do Futebol Santanense


Oficialmente, o Santana Clube (foto) seria na verdade a segunda entidade futebolística a surgir no município, seguida do Porto Esporte Clube, que durou pouco mais de três anos.

Com a instalação da Indústria e Comércio de Minérios Ltda (ICOMI), no final da década de 1940, objetivando explorar e exportar o minério de manganês situação na região de Serra do Navio, a pequena vila situada em frente à Ilha de Santana começaria a expandir-se aceleradamente, dando início a um povoado que levaria o nome daquela ilha. 

Na carência de entretenimento e outros fatores na diversão, não demorou a se formarem as primeiras agremiações esportivas na região que entrassem para a história santanense. 

Entre os primórdios do esporte local, registra-se em alguns documentos da extinta Prelazia de Macapá (hoje Diocese de Macapá), que havia no Orfanato “São José”, erguido na Ilha de Santana, um time de garotos, comandados pelo Padre Simão Corridori, que jogavam futebol contra os times infanto-juvenis das ilhas circunvizinhas. Porém, nada foi registrado oficialmente sobre a criação de uma entidade esportiva vinculada à esses garotos órfãos. 

No entanto, existiu uma agremiação esportiva que marcaria a história do futebol santanense, que, mesmo em pouco tempo de existência, deixou um importante registro para as gerações futuras do nosso esporte. Refiro-me ao Porto Esporte Clube. 

Fundado em 02 de abril de 1950, seu primeiro presidente foi João de Souza Madeira. Historicamente, é considerada a primeira agremiação desportiva do futebol santanense, vindo a ser formada por trabalhadores lotados na Serraria do Sr. José Antônio Contreiras (que estava situada na Ilha de Santana) e alguns operarios que estavam responsáveis pela montagem do futuro porto de embarque de minérios da ICOMI. 

O objetivo que levou à constituição desse clube estava bastante ligado aos horários de folgas que os referidos trabalhadores possuíam, na qual aproveitavam para dividir entre a família e uma partida de futebol, disputada entre os serralheiros do Sr. Antônio Contreiras e os operários contratados da ICOMI para montagem do Porto Industrial de Santana. A ideia de unificar os dois rivais partiu do eletricista José Carlos dos Santos, que trabalhava na construção do cais da ICOMI e notou a importância que teria se as duas vilas (Ilha de Santana e Porto de Santana) formassem apenas um time de futebol. 

Em dezembro de 1950, o então Governador do Território do Amapá Capitão Janary Nunes fez uma ligeira visita ao canteiro de obras do Porto de Santana e pôde conhecer o recém-criado Porto Esporte Clube (PEC), na ocasião em que inaugurava um alojamento e um refeitório para os trabalhadores da ICOMI. No início de 1951, o PEC participou de seu primeiro jogo oficial contra o Esporte Clube Macapá, mas acabou perdendo por 2 a 1. Jogavam pelo PEC: ZÉ Boquinha, Augusto, Madureira, Vicente, Romão, Lemos, Rato e Preto. 

Não se tem muitas informações sobre a existência desse clube, mas sabe-se que em fevereiro de 1952 jogou no Campeonato Amapaense de Futebol, mas não se classificou para a Segunda Rodada devido baixos pontos de marcação. 

Os últimos dados históricos registram que o PEC deixou de existir em 1953, logo após o início da construção oficial da estrada de ferro ligando as minas de manganês ao Porto de Santana, o que centralizou a atenção total dos trabalhadores da ICOMI para esta etapa das obras do cais de embarque. Somente dois anos depois, que viria a surgir uma nova entidade esportiva na região, que seria o Santana Esporte Clube, fundado em 25 de setembro de 1955.

A Esquecida Biblioteca Pública de Santana


Entregue à comunidade estudantil de Santana em 28.02.2000, a atual situação da Biblioteca Pública Municipal (foto) não se compara aos esforços feito por populares no passado e hoje vista pelo descaso do Poder Público.


A história do sistema bibliotecário de Santana teve início ainda no final da década de 1950, quando a empresa Indústria e Comércio de Minérios Ltda. (ICOMI) implantou suas duas primeiras escolas de ensino fundamental na vila de Serra do Navio e na Vila Amazonas (Santana). Em cada instituição, havia uma pequena biblioteca contendo cerca de 200 volumes que variavam entre História Contemporânea e Moderna e História do Brasil. Alguns livros também citavam obras de grandes literários e escritores da época como Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Graciliano Ramos. A maior parte desse acervo de pesquisas foi adquirido pelo escritório central da empresa de mineração (a ICOMI) em Belo Horizonte (MG), que ali realizou um “mutirão” para angariar tais livros entres seus funcionários e colaboradores. 

Em paralelo, na pequena vila operária – que depois se tornaria a famosa “Vila Dr.Maia” – também havia um humilde educandário que funcionava em anexo com a Igreja Nossa Senhora de Fátima e Sant’anna, que possuía apenas duas salas de aula, sem qualquer outra infraestrutura para sequer manter um espaço para reunir o corpo docente (que na verdade tratava-se de uma professora cedida pela Prefeitura de Macapá, auxiliado pelo pároco da Igreja local, Padre Ângelo Biraghi), ou para o lazer de quem estudava naquele local, diferente das instalações da Escola da Vila Amazonas (Esvam), que além de ter uma pequena sala para pesquisas, também tinha extensos corredores (cobertos) e uma área de recreação. 

Na década seguinte, o acervo de informações sobre Santana ganharia força com o lançamento da revista mensal “ICOMI Notícias” em janeiro de 1964, que reportava inúmeros fatos que ocorriam na empresa em relação ao setor administrativo, operacional, cultural e educacional, assim como também ilustrava com belíssimas fotos das paisagens envolta da pequena cidade portuária que se formava nas imediações da mineradora ICOMI. Durante seu período de circulação (que durou cinco anos ininterruptos), o informativo publicou fatos marcantes que entraram para os primórdios santanenses, como os primeiros passos para a implantação da empresa Brumasa (fábrica de compensados) a partir de 1965, a instalação de energia elétrica na Vila Dr. Maia e acompanhou o andamento para construção do Ginásio Municipal de Santana. 

No entanto, a necessidade maior de uma biblioteca pública em Santana começou a ter persistência na década de 1970, quando um grupo formado por professores das escolas Augusto Antunes e Amazonas estiveram presentes numa reunião com o então Governador do Amapá Capitão Arthur Henning (isso por volta de 1977) para proporem a instalação de um núcleo bibliotecário na Vila Dr. Maia com intuito de ajudar os estudantes que tinham o cansaço objetivo de deslocarem-se da vila de Santana a capital para buscarem fontes de pesquisa em seus trabalhos escolares. 

A tentativa dos professores não foi totalmente em vão, pois, o Governo Territorial contribuiu macicamente, doando cerca de 500 volumes de pesquisa para a biblioteca da Escola Augusto Antunes, que ficou sendo a principal referencia dos estudantes santanenses com relação à pesquisas escolares e correlatos. Em 1985, a pedidos da referida Escola, a Secretaria de Educação ampliou a sala de pesquisas e concedeu mais 140 livros, entre cartilhas infantis e enciclopédias. 

Quando Santana foi transformado em município amapaense em dezembro de 1987, a necessidade aumentou a partir do ano seguinte, quando um abaixo-assinado contendo cerca de 1.100 assinaturas de estudantes e professores foi enviada para o Palácio do Setentrião, onde descreviam no documento, a incansável persistência de uma entidade de pesquisa para o mais novo município do Amapá. 

Porém, os primeiros passos positivos aconteceu em 14 de abril de 1989, quando a Câmara de Vereadores de Santana aprovou o Projeto de Lei n.º 011/89, de autoria do vereador Diogo Ramalho, criando a Biblioteca Municipal de Santana. 

Em 1991, seu projeto de execução começaria a ser traçado quando o Ministério da Cultura enviou cerca de cinco mil livros (entre didáticos e coleções) para a Prefeitura de Santana, enquanto que o prédio para funcionar a futura Biblioteca pública de Santana estava sendo erguido em um terreno situado no cruzamento da Rua Ubaldo Figueira com a Avenida Antônio Nunes. Mas devido a carência de maiores recursos, a obra deu por ser paralisada ainda no início da administração do prefeito Geovani Borges (1993-1996). 

Acreditando que o Poder público Estadual assumiria a responsabilidade de concluir o futuro espaço, ainda houve a aprovação de uma Lei Municipal (092/92-PMS) que permitiu que a Prefeitura de Santana doasse ao Governo Estadual todo o acervo físico e cultural da instituição, esperando que fosse estruturada de maneira técnica e administrativa. Mais a tal atitude foi contrariada durante todo o ano de 1993 pela maioria dos vereadores da 2ª legislatura, que alegaram total descaso e intolerância por parte do Poder Estadual que se encontrava em desavenças político-partidárias com o Executivo Municipal, deixando até mesmo o Governo do Estado sem ação para agir em outras obras e programas sociais no município. 

Em março de 1994, o prefeito santanense Geovani Borges, com apoio de seu irmão (então) deputado federal Gilvam Borges esteve inúmeras vezes reunido na Capital Federal (Brasília-DF), buscando recursos viáveis para o andamento da referida obra, que ainda teve uma ligeira continuidade, mas novamente foi embargada ainda durante o levantamento dos alicerces laterais, somente retomando às obras em outubro de 1997, já na administração do prefeito Judas Tadeu Medeiros, que após retornar de Brasília (DF) conseguiu recursos federais para continuar com tal projeto cultural. 

Passado algum tempo, já por volta de junho de 1998, uma campanha coordenada por algumas escolas do Ensino Médio de Santana (entre elas, Barroso Tostes e Augusto Antunes), arrecadam cerca de 4 mil livros – entre revistas e jornais – que foram doados por pessoas anônimas e empresas instaladas no município, como a AMCEL, ICOMI, Frimap, Fundação de Assistência Social do Amapá e outras. 

A Conquista – Após uma emenda parlamentar apresentada no Senado Federal (DF) pelo então Senador amapaense Sebastião Rocha (PDT), foi possível que a Prefeitura de Santana procedesse as obras de construção do prédio da Biblioteca Municipal da cidade, na qual havia somente alguns alicerces e pilares já levantados. 

Depois de algumas ligeiras paralisações, a obra foi finalmente concluída e solenemente inaugurada em 28 de fevereiro de 2000, denominada como “Biblioteca Pública Municipal de Santana”, contendo um acervo inicial de quase oito mil obras de pesquisas, retratando informações do período da Idade Média aos dias mais recentes, revistas didáticas e até fontes para nível superior. 

Através da Lei Estadual n.º 0533 de 23 de maio de 2000, o Governo Estadual ficou autorizado a equipar a Biblioteca Pública de Santana, contribuindo com a doação de móveis, ar-condicionado, sistema telefônico e tudo que fosse necessário para seu bom funcionamento. 

Em 05 de julho desse mesmo ano (2000), a empresa Amapá Celulose e Papel Ltda (Amcel) fez a doação de um acervo contendo 512 títulos para a referida Biblioteca, como parte do “Projeto Bibliotecas”, numa solenidade que contou com a presença de autoridades políticas e sociais de Santana. 

Sua estrutura – Situado numa área de quase 2.000m², o prédio da Biblioteca divide o espaço com o Núcleo de Produção Artesanal (que foi inaugurado em 2001), onde produtos fabricados manualmente (sob efeito de artesanato) são comercializados. Neles estão produções como cestas enfeitadas, bolsas, miniaturas de embarcações marítimas (barcos). 

O complexo bibliotecário também possui um auditório contendo cerca de 250 lugares, onde ali esteve funcionando um cinema popular (no período de 2001-2002), onde foram exibidos grandes produções cinematográficas como “Harry Potter” e “Senhor dos Anéis”. 

Em 30 de março de 2006, a estrutura da biblioteca passou por uma ampla adaptação, passando a acolher um projeto cultural desenvolvido diretamente pelo Ministério da Cultura, denominado "Casa Brasil", que ficou funcionando gradativamente até meados de 2009, quando o auditório teve que ser desativado para passar por pequenos reparos. 

A falta de atenção do Poder Municipal levou a instituição a fechar suas portas para reformas físicas por tempo indeterminado. Houve uma tentativa de reabrir a Biblioteca Pública de Santana, em junho de 2010, agora sob a direção da professora Elizia Almeida, que na época ainda conseguiu efetuar um levantamento do material existente no local e apurou ainda haver pouco mais de 1.500 registros (entre enciclopédias, cartilhas didáticas e livros de ensino superior). Por determinação da Secretaria Municipal de Educação, que respondia pela sua coordenação, a Biblioteca santanense foi novamente fechada, dessa vez sem previsão de reativação. 

Em recente visita realizada nas instalações do prédio da nossa Biblioteca (em maio de 2012), pude constatar pessoalmente a lamentável situação que sua estrutura vem sofrendo pelo descaso público: janelas quebradas, paredes deterioradas, infiltrações pelos telhados e não havendo sequer corpo administrativo para dirigir a entidade, que agora encontra-se fechada para o público estudantil que tanto lutou pela aquisição de um espaço dedicado à pesquisa e leitura dos amantes dessa parte da nossa cultura.

domingo, 27 de maio de 2012

14 anos sem Lemos Coiê


Capa do primeiro CD do cantor Lemos Coiê (1953-1998), lançado em 1997. O cantor faleceu prematuramente, no algo de sua carreira regional.

Um ataque cardíaco fulminante, na madrugada daquele dia 30 de maio de 1998, calaria pra sempre um dos cantores regionais mais prestigiados na música amapaense daquela época. Era Lemos Coiê, popularmente conhecido o “Ídolo Negro Serrano”. Seu seria sepultado na manhã do dia seguinte (31), no Cemitério Municipal de Santana, sendo levado por centenas de admirados e amigos que o conheciam há décadas, muitas destas amizades construídas no Amapá desde meados da década de 1970 quando aqui chegou para trabalhar na Indústria e Comércio de Minérios Ltda (ICOMI). 

Desde criança, Lemos Coiê já despertava o interesse pela música. Com seu violão reunia com os amigos para cantarem juntos as músicas que faziam sucesso. 

Ingressou na mineradora ICOMI em 1976, onde trabalhou como operário e detonador de minas. Seu sonho era de gravar um disco com músicas de sua própria autoria, o que tentou por diversas vezes sem alcançar seu objetivo. De família humilde, o sonho ficava cada vez mais distante. Continuou trabalhando na ICOMI e procurava economizar para a realização de seu sonho. 

Até que o dia chegou. Com sua indenização trabalhista, Lemos viu possível a realização de seu ideal, e lançou seu primeiro CD, denominado “O Trem Partiu”, que ficaria registrado para sempre na memória de todos. 

Diante do sucesso desse primeiro CD, receberia o carinhoso apelido de “Ídolo Negro Serrano” de outros artistas regionais. Logo comprometeu-se nos planos de seu segundo trabalho, porém, esbarrou na burocracia do mundo empresarial que dificultou o máximo para que o seu segundo trabalho fosse concretizado. 

Entretanto, Lemos iniciou os trabalhos e já possuía em mãos uma fita K-7 com as músicas que compôs para o novo CD, entre elas, havia uma música dedicada à saudosa Princesa Diana (falecida em agosto de 1997). 

Porém, seu trabalho em busca de patrocínios seria fatalmente interrompido na noite da sexta-feira, 29, quando o artista sentiu as primeiras dores no peito. Como encontrava-se hospedado na casa de familiares, na Vila Amazonas, chegou a ser encaminhado imediatamente para o Hospital de Santana, onde veio a falecer na madrugada de sábado seguinte, dia 30 de maio. 

Durante seu enterro, o público presente que lamentava a perda deste grande nome para a história da música amapaense, cantaria a música que o lançou no campo artístico (“O Trem Partiu”), que aqui descrevo um trecho aos meus leitores: 

“Lá vai o trem
Deu sete horas
Da manhã
E já partiu
Vem de Santana
Para Serra do Navio
Ele vem dizendo
Café com pão,
Café com pão,
Bolacha não, ...”

Balizamento do Canal Norte do Rio Amazonas


Registro do Navio Hidrográfico (NHI) "Rio Branco" em frente da cidade de Macapá, em 1952, por ocasião dos trabalhos de balizamento do Rio Amazonas.


Com o advento da Indústria e Comércio de Minérios Ltda (ICOMI) o então Território Federal do Amapá, através de suas primeiras pesquisas minerais, ainda em meados da década de 1940, ante ao vulto de seu projeto industrial para a dinamização das reservas de manganês de Serra do Navio, pouco valeria à exploração das jazidas manganíferas, se o minério não pudesse chegar a volumes consideráveis aos mercados internacionais.  

Por outro lado, como desenvolver a industrialização na região se o grande Rio ficasse inacessível aos grandes navios e cargueiros, de maior calado, não apenas para o Porto de Santana (AP), mas também para outros portos brasileiros que estariam situados em pontos estratégicos com o Oceano Atlântico.  

Foi dentro de tais razões geográficas, que levou a Marinha de Guerra do Brasil, através de sua Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) a decidir pela imediata realização do levantamento hidrográfico do Canal Norte do Rio Amazonas e o seu balizamento. 

Em novembro de 1951, numa operação conjunta do Governo do Território Federal do Amapá (GTFA) e a ICOMI, ambos solicitaram ao Ministério da Marinha, em ofício direcionado ao DHN, as primeiras providências técnicas para que fosse efetuado o referido levantamento do Canal Norte do maior rio fluvial do mundo. 

Atendendo tal pedido, na manhã do dia 23 de junho de 1952, aportava em frente da cidade de Macapá, o Navio Hidrográfico (NHI) “Rio Branco”, com os componentes da 1ª Comissão do Amapá, comandado pelo Capitão-tenente Maximiano da Silva, Fonseca, que logo deu início aos chamados trabalhos de campo. 

Inicialmente efetuaram o que o serviço náutico denomina de “medição de base”, utilizando o Aeroporto de Macapá. Posteriormente, mediante a sistemática hidrográfica habitual, passaram a efetuar a metodologia de operação de triangulação, que, por falta de pontos notáveis (o terreno ser aspecto topográfico uniforme), tiveram que aproveitar as árvores mais altas do local, transformando-as em o que classificaram de “torres”, que variavam entre 06 a 08 metros de altura. 

Durante alguns meses, com auxílio de lanchas e ubás cedidas pela ICOMI e pelo GTFA, foram efetuadas as demarcações náuticas (entre a cidade Macapá e a localidade de “Pau Cavado”), considerados como pontos marginais do Rio Amazonas, para ali serem instalados os faróis de balizamento. A equipe do NHI “Rio Branco” enfrentou toda a sorte de empecilhos que a região lhe reservara, parecia que tudo contribuía para que se tornasse cada vez mais difícil o cumprimento dessa missão de balizamento, mas com muita determinação, a equipe concluiu a tarefa em setembro daquele ano, entre a cidade de Macapá e o Arquipélago do Bailique. 

Logo em seguida, a equipe do NHI, com muita persistência e técnica, iniciou as sondagens entre as localidades de Pau Cavado e Mupéua (próximo ao extremo norte da Ilha Caviana). Terminada essa tarefa, efetuaram as sondagens entre a localidade de Mupéua e o Bailique. Daí a equipe retornou para Macapá para concluir as sondagens entre a capital amapaense e a Ilha Pedreira, realizadas novamente pela lanchas e ubás de suas parceiras. 

Em 15 de abril de 1953, a equipe do NHI “Rio Branco” encerrou suas atividades de projeção hidrográfica na região, concluindo a sondagem de todo o braço norte do Rio Amazonas, que ia da cidade de Macapá até o Arquipélago do Bailique, valendo dizer que o referido Canal Norte ainda não estava apto para acesso de navios de grande calado, ainda faltando as sondagens da Barra Norte, ou seja, da região do Bailique para fora, pois, não puderam ser realizados devido à falta de equipamentos em função de inúmeros bancos de rebentações existentes naquela região, ficando tais serviços para serem feitos por uma outra Comissão marítima que seria enviada ao Amapá. 

Em Outubro de 1954 (um ano e meio depois), o NHI “Rio Branco” retorna ao Amapá, dessa vez trazendo uma 2ª Comissão, agora chefiada pelo Comandante Paulo Irineu Roxo Freitas, com a finalidade de concluir os trabalhos de sondagem do Canal e da Barra Norte, conforme acordo firmado entre o GTFA, a ICOMI e o Ministério da Marinha. 

Dispondo agora de equipamentos altamente técnicos e suficientes para a tarefa que iriam desempenhar, a 2ª Comissão começou a missão instalando as réguas de marés nas localidades de Limão do Curuá e na Ilha do Brigue (em Guimarães), onde ali deram início às suas observações. Imediatamente foi levantado um farolete na Ilha do Pará, e, preparada a folha de sondagem do Arquipélago do Bailique. 

Durante dois meses (no primeiro trimestre de 1955), a equipe do NHI paralisou os serviços para que fossem realizados reparos físicos e mecânicos no navio. Ao reiniciar os trabalhos, a equipe, em apenas 03 dias de atividades incessantes, realizou mais de 800 posições de sondagens. Posteriormente, o Ministério da Marinha Brasileira adquiriu nos EUA um aparelho de nome “Raydist”, onde o rendimento da tarefa aumentou consideravelmente. 

O chefe da 2ª Comissão no Amapá, Comandante Paulo Irineu Roxo Freitas, prometera aos parceiros concluir o levantamento hidrográfico do Canal e da Barra Norte até o fim de dezembro de 1955. No entanto, contando com a boa vontade e o alto preparo técnico de sua equipe conseguiu encerrá-lo no dia 02 daquele mês anunciado. 

Foram 14 meses de esforços consecutivos em que mais de duas centenas de homens de nossa valorosa Marinha de Guerra, considerando-se que as duas Comissões lutaram bravamente, mesmo diante das dificuldades detectadas na realização da missão, para que o Canal Norte do Rio Amazonas, de Macapá até o Oceano Atlântico, desse total acesso à livre navegação. 

Após essa execução náutica, os navios procedentes do Hemisfério Norte, em demanda aos portos de Santana (AP), Manaus (AM) e Iquitos (Equador), tiveram um encurtamento na rota marítima, em cerca de 400 milhas, comparando com a antiga rota feita de Belém (PA), através do Canal de Salinas e Bahia de Marajó, em águas de pouca profundidade, o que antes determinava um tráfego de navios de pequeno calado, o que ocasionava um maior consumo de tempo e combustível nas viagens. 

Graças a esse empenho do extinto Governo Territorial do Amapá (a partir de 1951), em parceria com a ICOMI e o Ministério da Marinha, que puderam liberar desde meados de 1956, a navegação de grande calado no Canal Norte do Rio Amazonas, que durante décadas recebeu dezenas de cargueiros e petroleiros nacionais e internacionais, que daqui levaram boas impressões sobre nossos aspectos sociais e principalmente minerais.